PRÉDIO DA CAERN DA RIBEIRA – ÍCONE DO MODERNISMO NO BRASIL – ESCRITÓRIO SATURNINO DE BRITO

CAERN – 2004

LE CORBUSIER influenciou muitos arquitetos, engenheiros civis e artistas no mundo todo no início da década de 1920, sempre na dianteira dos famosos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. E os traços dessa fase se estenderam à terra de Câmara Cascudo. Na realidade, Natal/RN não é cenário de grandes obras modernistas, até porque os exemplares sobreviventes são acanhados, descaracterizados e imprensados na cidade que cresceu rápido e não se preocupou muito com preservação de seu patrimônio. Mas, dentre poucas obras modernistas, a meu ver, uma se destaca de forma muito especial. E rara. É o octogenário PRÉDIO DA CAERN-RIBEIRA, chamado originalmente INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO DE NATAL.

Prédio da CAERN aos dias 2 de dezembro de 2016

Essa construção é uma das maravilhas do modernismo brasileiro – verdadeira referência para o Brasil. Na realidade, o texto que se seguirá abaixo se baseia mais nas imagens que no próprio prédio atual, que está muito descaracterizado. Essa obra detém uma singularidade excepcional. E é admirável que há 80 anos, tenha chegado à pacata Natal uma proposta tão a frente do tempo.

Chego a imaginar o que pensaram os engenheiros, arquitetos e mesmo os peões quando viram esse templo sendo lentamente levantado, destoando de tudo o que existia aos seus redores. Consideremos também que Natal sempre teve uma arquitetura muito provinciana, que resistiu mesmo às inovações que foram aparecendo pelo Brasil, principalmente em São Paulo.
EM PLENOS OLHOS ATUAIS O PRÉDIO CONTINUA À FRENTE DO TEMPO, EXALANDO MODERNIDADE.

O prédio é tão belo e visionário que permanece numa atualidade incrível, não fosse os danos sofridos. É INACREDITÁVEL QUE HOMENS PÚBLICOS –
GOVERNANTES – TIVERAM A ESTUPIDEZ DE MATAR ESSE MONUMENTO RARO DO MODERNISMO NO RIO GRANDE DO NORTE, MARCO DA RUPTURA COM O CLASSICISMO.

Costumo sempre lembrar que o RN é palco de pioneirismos. A primeira feminista, abolicionista, republicana, indianista e reformadora da educação brasileira, por nome Nísia Floresta; a primeira prefeita da América Latina: Alzira Soriano; a primeira eleitora do Brasil: Celina Guimarães; a primeira fábrica da Coca Cola; os primeiros voos aéreos do mundo (que desciam na hoje Parnamirim) etc etc etc.

Para termos ideia de o quanto foi ousada a proposta do prédio da atual CAERN/RIBEIRA, basta retroceder no tempo e visualizarmos a Essa construção é uma das maravilhas do modernismo brasileiro – verdadeira referência para o Brasil.

PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL – SÃO PAULO – 1928

Neste período, São Paulo passava por um intenso processo de industrialização e urbanização, com a formação de uma burguesia sintonizada com os costumes da belle époque parisiense e a intensificação de imigração para fornecimento de mão-de-obra fabril, refletidas na criação de bairros inteiramente novos. A referida casa assustou os conservadores.

A propósito, há forte semelhança dessa casa com o prédio da CAERN/RIBEIRA. E o mais curioso é qua a obra de Natal não veio tarde, como se pode supor. Ela se concretizou 9 anos depois da casa paulista. Ou seja, em 1937. Mas, considerando a ideia de que Natal ainda era muito provinciana à época, fica evidente a vanguarda potiguar, os quais não ficaram a dever nada ao modernismo paulista. Se bem que falamos de algo mundial. O próprio WARCHAVCHIK recebeu forte influência de LE CORBUSIER. Mas também não pensemos que esse modernismo foi recebido de braços abertos. Com certeza muitos torceram os narizes, apegados à velha arquitetura.

Se você pegar o livro VERS UNE ARCHITECTURE, de CORBUSIER, perceberá as fortes influências dele no prédio da CAERN/RIBEIRA. O referido prédio priorizava uma maneira inovadora de ver as formas, cuja valorização da funcionalidade era o mote da coisa. Havia ansia pela valorização do conforto humano: claridade, ventilação, contato com o externo mesmo dentro do prédio (por isso a amplitude dos janelões de vidro), terraço-jardim etc. E isso assustava, pois rompia com velhas concepções góticas. Clássicas etc.

SOB LUZ NATURAL E VENTILAÇÃO DO ÓCULO (ACIMA) SUBIA-SE A ESCADARIA, ATÉ CHEGAR AO 1º ANDAR E AO TERRAÇO NO TETO.

Natal, naquela época, possuía amplas áreas verdes. Logo o local escolhido para a INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO foi o sopé de uma duna – subida para a “cidade alta”. Um descampado. Verdadeiro extra terrestre, com características funcionalistas. Mas como essa ideia chegou por aqui? Quem a construiu?A novidade daquela época no Brasil, era inovar, empregando materiais não comuns e reinventando a aplicação de outros. Assim veio o concreto armado, a estrutura aparente, as coberturas planas e grandes fachadas envidraçadas com caixilhos metálicos, valorizando a pureza dos volumes prismáticos, a supervalorização do ângulo reto e a total extinção de detalhes e “riquififes”. Certamente muitos abominaram, assim como fazemos, hoje, quando vemos as incontáveis “caixas de sapato” pelas esquinas de Natal, muito embora incomparáveis.

O prédio da INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO DE NATAL foi obra do famoso engenheiro Saturnino de Brito, de Recife/PE, o qual recebeu influências de genialidades como GREGORI WARCHAVCHIK, LÚCIO COSTA, A. E. REIDY, OSCAR NIEMEYER e S. BERNARDES. Em 1935 Natal estava fortemente estimulada para inovar e modernizar a sua urbanização. Desse modo o governador Rafael Fernandes contratou os serviços do ESCRITÓRIO PERNAMBUCANO F. SATURNINO DE BRITO para o Plano Geral de Obras, visando construir inúmeras obras, dentre elas o citado prédio.

MODERNÍSSIMOS “VITRÔS” COM REGULAGEM DE ENTRADA DE AR FORNECIAM AO AMBIENTE BELEZA, LUZ E VENTILAÇÃO.

Na realidade o engenheiro SEBASTIÃO SATURNINO DE BRITO (pioneiro da Engenharia Sanitária e Ambiental no Brasil) chegou a desenhar vários prédios (conforme veremos nesse texto), como o Grande Hotel, Estação Ferroviária, Palácio do Governo, Aeroporto Secretarias, bairros residenciais etc, mas muito disso só ficou no desenho.

OBSERVE QUE O AMBIENTE ERA TOTALMENTE ILUMINADO POR LUZ NATURAL.

Mas, como “tudo o que é bom dura pouco”, como diz o ditado, o deus moderno da arquitetura potiguar foi mutilado pela ignorância. Sabemos que o progresso exige mudanças. As coisas vão se “modernizando”, exigindo adaptações como equipamentos de ar-condicionado, louças de banheiro, distribuição de água, sistema elétrico etc. E os governos e funcionários responsáveis pelo prédio foram dilapidando-o gradualmente, matando a sua história, ignorando o que o prédio significava para o Brasil. Nem ao menos as fachadas foram respeitadas. Mudaram dentro e fora. Retiraram a belíssima escadaria que se encerrava no teto, numa espécie de mirante para desopilar a mente. Pasmem! No lugar da escada fizeram um sanitário. O óculo que permitia ventilação em todo o prédio foi tampado. As esquadrias da escada foram mudadas. O terraço também não existe mais. Na realidade, SATURNINO DE BRITO, por sua visão sanitária, priorizava ambientes que colaborassem com o conforto pleno de quem utilizasse, e a questão sanitária estava visível nos fatores acima citados.

PRÉDIO HISTÓRICO DA CAERN – RIBEIRA AO FUNDO, IGGREJA DE BOM JESUS DAS DORES (COMO NÃO PODERIA SER DIFERENTE, HOJE ESTÁ MUTILADA).

Fonte: Nísia Floresta por Luis Carlos Freire

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