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Redes sociais e mobilizações
quinta-feira,
22 de setembro de 2011
Quarta,
21 de Setembro de 2011
A 7 de setembro,
data da independência do Brasil, ocorreu algo novo:
as ruas foram ocupadas por mobilizações populares
convocadas através da internet.
As pessoas saíram
em passeatas para protestar contra a corrupção,
o sucateamento da educação, e por reforma agrária
e auditoria da dívida pública, entre outros
temas. E fizeram questão de imprimir às manifestações
caráter apartidário. Quem se atrevesse a desfilar
com sigla de partido político era imediatamente rechaçado.
Ali, no 7 de setembro, uniram-se o Grito dos Excluídos
e o grito dos indignados.
As ruas do Brasil,
até então acostumadas a ver, nos últimos
tempos, apenas manifestações de evangélicos,
gays e defensores da liberação da maconha, voltaram
a ser palco de pressão política e reivindicação
popular.
O poder convocatório
das redes sociais é inegável. Elas possuem uma
capilaridade que supera qualquer outro meio de comunicação.
E carecem de censura ou editoração falaciosa.
Há, contudo,
duas limitações que podem afetar seriamente
os efeitos da mobilização internética.
A primeira, a falta de proposta. Não basta gritar contra
a corrupção ou aprovar a faxina operada pela
presidente Dilma Rousseff. É preciso exigir reforma
política, e propor critérios e métodos.
Reforma política
com o atual Congresso – composto, em sua maioria, por
parlamentares capazes de absolver uma deputada federal flagrada
e filmada recebendo propina – é acreditar que
Ali Babá é capaz de punir os 40 ladrões...
É preciso,
primeiro, reformar, ou melhor, renovar o Congresso para, em
seguida, obter reforma política minimamente decente.
De modo que sejam instituídos mecanismos que ponham
fim às duas irmãs gêmeas madrinhas da
corrupção: a imunidade e a impunidade.
Essa renovação
deve se iniciar, ano que vem, pela eleição de
prefeitos e vereadores, todos submetidos ao crivo da Ficha
Limpa, e pressionados a apresentar metas e objetivos, como
propõe o Movimento Nossa São Paulo.
A segunda limitação
é o caráter apartidário das manifestações.
Em si, é positivo, pois impede que algo nascido da
mobilização cidadã venha a se converter
em palanque eleitoral deste ou daquele partido político.
Porém,
na democracia não se inventou algo melhor para representar
os anseios da população que partidos políticos.
Eles fazem a mediação entre a sociedade e o
Estado. O perigo é as manifestações não
resultarem na eleição de candidatos eticamente
confiáveis e ideologicamente comprometidos com as reformas
de estruturas, como a política e a agrária.
Ou desaguar no pior: o voto nulo.
Quem tem nojo
de política é governado por quem não
tem. E os maus políticos torcem para que tenhamos todos
bastante nojo de política. Assim, eles ficam em paz,
entretidos com suas maracutaias, embolsando o nosso dinheiro
e ampliando suas mordomias e seus patrimônios.
As redes sociais
são, hoje, o que a ágora era para os gregos
antigos e a praça para os nossos avós –
local de congraçamento, informação e
mobilização. Foram elas que levaram tunisianos
e egípcios às ruas para derrubar governos despóticos.
São elas que divulgam, em tempo real, as atrocidades
praticadas pelas tropas usamericanas no Iraque e no Afeganistão.
As redes sociais
têm, entretanto, seu lado obscuro e perverso: a prostituição
virtual de adolescentes que exibem sua nudez; o estímulo
à pedofilia; a difusão de material pornográfico;
o incitamento à violência; a propaganda de armas;
o roubo virtual de senhas de cartões de crédito
e contas bancárias.
Espero não
tardar o dia em que as escolas introduzirão em seus
currículos a disciplina Redes Sociais. Crianças
e jovens serão educados no uso dessa importante ferramenta,
aprimorando o olhar crítico, o senso ético e,
em especial, a síntese cognitiva, de modo a extrair
sentidos ou significações do incessante fluxo
de informações e dados.
Graças
à internet, qualquer usuário pode se arvorar,
agora, em sujeito político e protagonista social, abandonando
o passivo papel de mero espectador. Resta vencer o individualismo
e o comodismo e sair à rua para congregar-se em força
política.
Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas
do Ouro” (Rocco), entre outros livros. Página
e Twitter do autor: http://www.freibetto.org/
e twitter:@freibetto.
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