|
Queda da desigualdade
impressiona.
quarta-feira,
14 de outubro de 2009 - 10h04
Um
dos maiores especialistas em pobreza e desigualdade, o economista
do Ipea Ricardo Paes e Barros considerou significativa a queda
da desigualdade no Brasil. Olhando os rendimentos das famílias,
a distribuição melhorou no mesmo ritmo dos últimos
anos. "Essa sequência de queda é impressionante.
Nunca tivemos nesse país quedas tão intensa
e por tanto tempo", disse.
A queda da desigualdade no mercado de trabalho
foi menor este ano. Em 2007, foi de 2,8% e este ano, de 1,7%.
O que pode explicar isso?
RICARDO PAES E BARROS: O aumento da ocupação
e a queda do desemprego podem ter levado para o mercado de
trabalho os mais pobres e os mais jovens com rendimento menor.
Isso pode ter feito a desigualdade não cair tanto este
ano. O que não é ruim. O que importa mais é
a desigualdade entre as famílias.
E essa manteve o mesmo ritmo de queda dos
últimos anos, superior a 1%...
PAES E BARROS: É uma sequência
de queda impressionante. Nunca tivemos nesse país quedas
tão intensa e por tanto tempo. Desde 2001, a desigualdade
vem caindo no Brasil. A renda dos mais pobres cresce sete
vezes mais rápido do que a renda dos mais ricos. Todos
estão ganhando. É o crescimento com equidade.
Mesmo com expansão baixa da economia, a desigualdade
não deixou de cair todos esses anos.
A pesquisa foi feita em setembro de 2008,
quando a crise ainda não tinha chegado aqui e voltará
a ser feita este mês, quando a economia já reagiu.
A Pnad pode não captar a crise?
PAES E BARROS: É uma possibilidade
forte. A crise foi transitória e pode não ter
deixado sequelas a longo prazo. Se alguém não
soubesse que essa crise existiu, vai olhar os dados da Pnad
sem notar. Se isso acontecer, a economia brasileira mostrou
uma capacidade de recuperação fantástica.
O trabalho infantil caiu de 10,6% para 10,2%
das crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos. Não
é uma redução pequena?
PAES E BARROS: Ele continua caindo e de forma
acentuada. Se mantiver esse ritmo de queda, em 25 anos, cairemos
a um terço o trabalho precoce. As metas do milênio
estabelecem para outros indicadores, como pobreza, que se
reduza em 50% em 25 anos. Mantemos a tendência de queda
acelerada.
A taxa de analfabetismo ficou estagnada em
2008 em 10% da população de 15 anos ou mais,
atingindo 14,2 milhões de pessoas.
PAES E BARROS: A taxa de mortalidade dos
analfabetos, por serem mais velhos, é maior que a dos
alfabetizados. É natural que a taxa decline. É
bem complicada, a taxa não ter caído. Isso mostra
que o país tem dificuldade de reduzir o analfabetismo
adulto. A taxa de 10% é muito alta. É preciso
pensar e repensar a política de combate ao analfabetismo.
A escolarização de jovens entre
18 e 24 anos caiu. O que explica isso?
PAES E BARROS: Há o lado bom, que
mostra que houve redução no atraso escolar e
essa população conseguiu concluir o ensino médio.
O mercado de trabalho aquecido atraiu esses jovens. O lado
ruim é que eles completam o ensino médio e não
conseguem oportunidade para entrar na universidade. Ainda
faltando apoio para educação superior. É
preciso mais Pró-Uni, que ainda é pouco.
O acesso à rede coletora de esgoto
nos domicílios avançou pouco em 2008, atingindo
apenas 52% dos lares.
PAES E BARROS: Sinal que as obras do PAC
ainda não apareceram na pesquisa. Essa cobertura é
ridícula. O saneamento junto com o analfabetismo são
os calcanhares de Aquiles desse governo. |